A Regra dos 9
O folclore da Lotofácil manda "repetir 9 dezenas do último concurso": quem monta o jogo assim busca uma quantidade específica de repetição com o resultado anterior, como se isso fosse uma estratégia.
Dezenas repetidas entre concursos consecutivos (3.765 pares)
Repare que a distribuição começa em 5, não em 0: escolhendo 15 dezenas de 25 duas vezes seguidas, a sobreposição nunca pode ser menor que 2 × 15 − 25 = 5. É geometria de conjuntos, não uma descoberta desta análise — mas explica por que ninguém nunca viu um concurso repetir menos de 5 dezenas do anterior.
Por que 9 é a Média Inevitável
Escolher 15 dezenas de 25 duas vezes seguidas (o concurso anterior e o atual) tem esperança matemática de 15 × 15/25 = 9,00 dezenas repetidas — um número exato, não arredondado. A média real do histórico, 8,97, fica coladinha nesse valor, e o valor mais comum é exatamente 9 repetidas, em 32,5% dos concursos. A superstição "repita 9" não descreve um padrão: descreve a média que o acaso já produz sozinho.
Um Terço do Jogo Inteiro
Seguir a regra dos 9 não estreita a sua escolha quase nada. O conjunto de combinações que repetem exatamente 9 das 15 dezenas de um concurso dado é C(15,9) × C(10,6) = 1.051.050 combinações, de 3.268.760 possíveis: 32,15% de todas as combinações da Lotofácil.
"Repetir 9" não é estratégia: é a descrição de um terço do jogo inteiro. Ao contrário de "jogar só datas de aniversário" (que cabe numa fatia pequena e específica do volante), a regra das repetidas é ampla demais pra concentrar apostas numa faixa estreita de combinações — e é exatamente por isso que ela não devia deixar rastro nenhum na taxa de ganhadores, ao contrário do que a seção seguinte testa.
Testamos a Aglomeração Aqui, e Não Achamos Nada
O mesmo método que mediu a aglomeração das datas de aniversário na Mega-Sena e na Quina roda aqui: cruzamos quantas dezenas cada concurso repetiu do anterior com quantos ganhadores de 15 pontos ele teve. Se a crença das repetidas concentrasse apostas do jeito que as datas concentram, sorteios com o número "popular" de repetidas teriam mais gente ganhando junto.
Taxa de sorteios com ganhador, por nº de dezenas repetidas (97% dos pares, faixa de 7 a 11 repetidas)
Chapado: de 7 a 11 repetidas, a taxa de sorteio-com-ganhador varia só 1,6 pontos percentuais (86,4% a 88,1%), contra a taxa geral de 87,4%. Essas 5 faixas concentram 97% de todos os 3.765 pares. Não existe degrau: nem no 9 (o valor "popular"), nem em nenhum vizinho.
O silêncio aqui não é um resultado pobre: é o que valida, ao contrário, o efeito medido nas datas de aniversário. O mesmo método detecta aglomeração forte quando ela existe de verdade ( Mega-Sena e Quina, onde jogar só datas concentra apostas numa fatia pequena do volante) e fica em silêncio quando a crença é ampla demais pra concentrar qualquer coisa, como aqui. Um método que "acha padrão em qualquer lugar" seria inútil; um que mede zero onde a matemática prevê zero e mede um efeito grande onde a matemática prevê concentração é uma medição, não um garimpo de correlação.
Os Extremos da Distribuição
Nas pontas da distribuição — poucos pares, e um resultado chamativo: 6 repetidas (52 pares) teve ganhador em 100,0% deles, 13 repetidas (8 pares) também em 100,0%, e o único par com 14 repetidas teve ganhador também.
"100%" de uma amostra pequena não quer dizer a mesma coisa em todo lugar. Sob a taxa geral de 87,4% (a hipótese de que repetidas não importa), a chance de TODOS os 8 pares do bucket de 13 repetidas terem ganhador, só por acaso, é 33,9% — comum, não chama atenção. O par único de 14 repetidas é ainda menos informativo: uma amostra de tamanho 1 não prova nada, seja qual for o resultado. Nenhum dos dois entra como achado: a amostra é pequena demais.
O bucket de 6 repetidas é diferente: com 52 pares, a chance de TODOS terem ganhador só por acaso, sob a mesma taxa geral, é de apenas 0,1%. Essa conta vale para uma faixa escolhida de antemão, e não foi isso que fizemos: olhamos as 10 faixas da distribuição e destacamos a que mais chamou atenção, o que torna o achado bem menos improvável do que parece. Procurar em 10 faixas e encontrar um resultado de 1 em 1.000 acontece em torno de 0,9% das vezes. Continua sendo incomum, e continua sem explicação, mas não é o 1 em 1.000 que o número isolado sugere.
Isso também não é artefato do crescimento do volume de apostas ao longo dos anos (o mesmo teste que fizemos nas datas de aniversário): partindo a série em duas metades iguais por índice de concurso, a primeira teve 23 de 23 pares do bucket de 6 com ganhador (100,0%), contra uma taxa geral de 92,9% naquela metade; a segunda teve 29 de 29 (100,0%), contra 81,8% na sua. Não é um efeito recente: o bucket aparece cheio nas duas metades, acima da própria base de cada uma.
Sem meias palavras: não sabemos por que o bucket de 6 repetidas nunca teve um concurso sem ganhador. A média de ganhadores nesse grupo (4,04) é só um pouco acima da média geral (3,29) — bem menor que o salto visto nas datas de aniversário, então não é o mesmo tipo de aglomeração. Não inventamos explicação pra isso, e não escondemos o número: fica registrado aqui, sem resposta, até que a base cresça o bastante pra dizer se é coincidência de amostra pequena ou algo real.
Popularidade e o Risco de Dividir o Prêmio
Nas datas de aniversário, existe um argumento estatístico honesto: jogar só datas concentra apostas numa faixa estreita do volante, e isso aumenta a chance de dividir o prêmio (nunca de ganhar). Aqui é diferente, e vale dizer sem rodeios: "repetir 9 dezenas" cobre 32,15% de todas as combinações da Lotofácil — ampla demais pra concentrar apostas em qualquer faixa específica. Testamos e não achamos efeito na taxa de ganhadores. Ao contrário das datas de aniversário, não há aqui indício de risco extra de dividir o prêmio: a crença é vaga demais pra isso.
Só por curiosidade — e aqui vale uma diferença importante em relação às datas de aniversário. Repetir dezenas do concurso anterior não muda a sua chance de ganhar: toda combinação tem exatamente a mesma probabilidade de sair, sempre. A regra popular de "repetir 9 dezenas" também não é como evitar combinações de datas: ela cobre cerca de um terço de todas as combinações possíveis da Lotofácil, ampla demais pra concentrar apostas numa faixa estreita. Testamos e não achamos diferença na taxa de ganhadores entre repetir poucas ou muitas dezenas do concurso anterior: ao contrário das datas de aniversário, aqui não há indício de risco extra de dividir o prêmio.